Entrevista com Nuno Rosário

Para os amantes de matemática, o Instagram, Facebook e Youtube da Matemática Online são paragens diárias obrigatórias, quer pela rubrica “Matemático do dia”, quer pelos desafios matemáticos que nos obrigam a pensar. Hoje ficamos a conhecer Nuno Rosário, o professor e explicador de Matemática responsável por este projeto. Sem “medo de errar” e com a crença de que ainda “vale a pena continuar”, Nuno não tem dúvidas de que está nas mãos dos professores mostrar aos alunos que a matemática pode ser um caminho interessante.

Como surgiu a paixão pela matemática?

Começou ainda nos tempos de escola, em que via os exercícios como um desafio. Talvez também por culpa - no bom sentido - de professores que tive e me marcaram, nomeadamente no secundário. Foi aí que o interesse para a Matemática despertou e foi assim que acabei por optar pelo curso de Matemática. No curso, fiquei a admirar em particular um professor que fazia - e ainda faz - as coisas de uma forma tão simples que me deixava fascinado.

O que o levou a querer ser professor?

Ao optar pelo curso de Matemática, vi a possibilidade de ensinar e tentar transmitir o conhecimento. Comecei relativamente cedo a trabalhar assim que terminei o curso e gostava imenso de tentar mostrar aos alunos como pensava, pois sentia que pensava de uma forma simples e que podia ajudá-los. Foi o que me levou a dar aulas.

O Nuno refere que é “essencial retirar o estigma de que a matemática é uma área de difícil compreensão e que exige um esforço que só alguns poderão atingir”. Como acha que podemos fazer isso?

O tamanho das turmas não ajuda, apesar de não ser simples mudar isso, seria muito vantajoso, as aprendizagens seriam melhores. Por outro lado, quando os professores se sentem motivados, a motivação é contagiante. Se forem dinâmicos e interessados em transmitir o conhecimento aos alunos, eles vão sentir-se mais envolvidos no processo de aprendizagem. Isso tudo faz com que os resultados apareçam. Os alunos devem sentir-se confortáveis dentro da sala de aula e não ter receio de colocar dúvidas ao professor. Tem de se criar um bom ambiente para haver a partilha. Muitas vezes as dúvidas dos alunos fazem todo o sentido e pode desencadear-se uma série de situações em que se acabam por abordar muitos conceitos da matéria que estava a ser dada.

Na matemática temos temas bastante diferentes, mas muitos conceitos são transversais e se o aluno não domina um, vai ter dificuldade nos outros. Se houver uma continuidade, um encadeamento lógico, tudo vai funcionar mais facilmente.

Porque surgiu a Matemática Online?

A Matemática Online surgiu da ideia de tentar partilhar conteúdos e dar a conhecer alguns desafios, colocar fichas ou sínteses e partilhar com os alunos. Muitas vezes contactam-me para tentar ajudar a resolver um exercício. Gosto muito do contacto com as pessoas e de as ajudar. E é bom sentir do outro lado o agradecimento. Gosto também de partilhar alguns conceitos relacionados com matemática, como o matemático do dia, uma rubrica que agora tenho nas redes sociais em que partilho o matemático que nasceu em cada dia.

Matematica online

Já publicou sobre tantos matemáticos. Qual é o seu matemático preferido?

Com as minhas pesquisas diárias para o “matemático do dia” vou conhecendo muitos matemáticos e relembrando alguns dos quais já não me recordava. Acho fascinante porque todos contribuíram de diferentes formas. E é juntando todas as contribuições que temos a matemática como a conhecemos hoje em dia. Mas gosto particularmente do Euler.

Portanto a ideia foi partilhar mais do que exercícios de matemática.

Quando comecei, tinha uma lista enorme de coisas que queria partilhar, mas sou só um e não há tempo para tudo. O nome Matemática Online foi mesmo no sentido de colocar a matemática num site - online. E agora mais do que nunca faz sentido.

Mas o online traz também alguns desafios. Acha que resulta trabalhar à distância no ensino da Matemática?

É diferente. Claro que o trabalho à distância se intensificou nestes últimos meses, mais do que nunca. Mas sinto que depende dos alunos. Para os alunos mais motivados e empenhados, com uma grande capacidade de trabalho autónomo, não houve muitas diferenças. Para um aluno que precise de uma transmissão maior de confiança, a minha experiência foi que presencialmente talvez se consiga fazer com que o aluno trabalhe um pouco mais. O trabalho presencial é importante, mas existe esta alternativa e está ao nosso alcance para não ficarmos totalmente parados.

Qual é a melhor memória que tem enquanto professor de Matemática?

Estava agora a recordar-me de um aluno que acompanhei enquanto professor numa escola durante todo o ensino básico e mais tarde enquanto explicador do ensino secundário. Adorei trabalhar com aquele aluno. Quando foi para a universidade, ele e os pais ligaram-me a dizer que estava a ter uma facilidade enorme e que “punhas as culpas” no acompanhamento que tinha tido no secundário. O facto de ele ter partilhado isso comigo e de ter dito que eu lhe transmitia as ideias de uma forma simples deixou-me orgulhoso. Por vezes temos momentos em que nos sentimos mais em baixo e estas palavras fizeram-me sentir que vale a pena continuar.

O que seria se não fosse professor de matemática?

Ainda bem recentemente estive a falar disso e não tenho a mínima ideia do que teria feito se não tivesse seguido matemática. Na altura, segui aquilo que me despertava mais interesse. Não ficou nada para trás, mas talvez tivesse tentado algo relacionado com informática.

Que dicas e conselhos deixaria para quem quer seguir Matemática e ser professor?

Acima de tudo tem de dar sempre o melhor dele e ser verdadeiro com os alunos.
Enquanto professor acho que não devemos ter o receio de errar. Eu posso preparar detalhadamente uma aula, mas não o costumo fazer, deixo em aberto. Consoante as questões dos alunos, tento encaminhar. Muitas vezes gosto de não ter os exercícios resolvidos previamente, para eles acompanharem a minha forma de pensar, para que vejam que se eu fui por um caminho e não cheguei ao resultado pretendido, podemos voltar atrás e ir por outro caminho.
Não há problema em errar, não faz mal. O importante é perceber que não estamos a ir por um bom caminho e não ter receio de tentar outro. Ter tudo muito definido faz com que os alunos não estejam habituados a voltar atrás e, se as coisas correm mal, eles não sabem sair do problema. Acho importante deixar o aluno explorar e perceber o erro.
O professor tem de ter esta capacidade de ser verdadeiro com o aluno e mostrar que também erra.
Acho que não é muito positivo estarmos sempre a dizer que “a matemática é um bicho de sete cabeças”. Não há necessidade de dizermos isso, o aluno é que vai decidir se é fácil ou difícil. Há alunos que dizem que a matemática é difícil não porque tenham sentido dificuldades, mas porque ouviram isso! Temos de deixar os alunos respirar.